Vitória para as ILPIs

Dirigentes de lares de idosos contam como têm conseguido driblar os desafios causados pela Covid-19


Esta fase de pandemia que estamos vivenciando é um momento de inúmeras preocupações para as ILPIs - Instituições de Longa Permanência para Idosos, mas o Lar dos Idosos Clotilde Martins e o Lar Frei Zacarias têm motivos de sobra para comemorar. Graças às boas práticas adotadas nas instituições, elas conseguiram conter o surto da Covid-19 e alcançaram resultados muito satisfatórios até agora, pois estavam preparadas e devidamente apoiadas.


A Senhora Vicentina Pereira da Conceição mora no Lar dos Idosos Clotilde Martins desde 2013. No mês passado ela completou 102 anos de idade, mas a festa aconteceu mesmo foi na última quarta-feira (12) porque ela tinha acabado de se recuperar do novo coronavírus.

Mesmo ficando 17 dias internada, Willian Carlos Campos Barbosa, presidente do Lar, afirma que todos acreditavam na recuperação dela, pois a Senhora Vicentina sempre foi muito forte. “Ao observar que a idosa apresentou baixa saturação, a equipe de saúde do Lar a encaminhou para o Centro de Saúde Salgado Filho, em seguida ela foi para a UPA Oeste e, em sequência, para o Hospital São Francisco”, explica Irene Rezende, Assistente Social da instituição.


De acordo com a Senhora Vicentina, ela nunca desistiu de lutar pela vida e diz que o fundamental para a sua recuperação foi a crença em Deus. A mensagem que ela deixa para todos que estão doente é que “tenham fé e se cuidem melhor”!


Alerta e escuta


Com 25 moradoras, o Lar Frei Zacarias confirmou o primeiro caso de Covid-19 no dia 3 de julho. De forma consciente sobre todas as dificuldades que enfrentariam diante o novo cenário da pandemia, a equipe de gestão e saúde (coordenador, responsável técnico e médico da Instituição) se organizou, procurando analisar a situação com uma visão macro, por meio de estudos, palestras e formações. Foi com essa postura que, das cinco moradoras com diagnóstico positivo, todas se recuperaram.


“Salientamos a importância da Frente Nacional de Fortalecimento às ILPIs e da articulação efetiva com o CMI e o CeMAIS. Por conseguinte, procuramos elencar ‘objetivamente’ as metas que deveríamos alcançar, os problemas a serem sanados, e identificar as necessidades e a viabilidade das ações”, explica Marcelo Manoel Sobrinho, coordenador do Lar.


A preocupação do dirigente nesse momento era que a comunicação entre os envolvidos acontecesse de maneira ampla e clara. “Todas as formações e trabalhos sistematizados e construídos pela equipe de gestão e saúde foram apresentados aos funcionários, familiares e às moradoras”, ressalta.


Mensagens das moradoras do Lar Frei Zacarias


Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista com o coordenador:


CeMAIS - A que você acredita que se deve o sucesso das ações?


Marcelo Manoel Sobrinho - Ao trabalho conjunto e holístico, entendendo a Instituição como um organismo vivo, entendendo em cada uma de nossas moradoras sujeitos de direito e dignidade. Todas as vidas humanas são importantes e de igual valor A equipe de gestão e saúde, dentro do horizonte possível, procurou reunir os funcionários, as famílias e as moradoras e fazer o gerenciamento e o acompanhamento individualizado, enquanto as tarefas e novos protocolos de saúde, segurança e vigilância sanitária fossem executados. Muitas mudanças e variações de comportamento e rotina aconteceram. Todavia, todos os envolvidos, de modo ativo e responsável, estiveram por dentro do que foi modificado e efetivado, procurando, sempre que possível, contribuir para alguma solução mais assertiva dentro do processo.

TODAS AS VIDAS HUMANAS SÃO IMPORTANTES E DE IGUAL VALOR

CeMAIS - Vocês chegaram a desistir de lutar contra a doença em algum momento?


MMS - A pandemia nos trouxe uma reflexão onde somos igualados em nossa pequenez. E quantas surpresas! Tomados por um outono de muitas incertezas e dúvidas, fomos levados ao cair das folhas a deixarmos ser guiados pelo tempo. E quando em 3 de julho tivemos o primeiro caso confirmado com Covid-19 entre as moradoras, colocamo-nos em estado de cobrança, tristeza e desalento. Perguntas banais como “por que aconteceu aqui?”, “o que fizemos de errado?” deram lugar para um otimismo operante de nos esforçarmos para conquistar e perpetuar a cura. E quantas alegrias e surpresas: a receptividade dos familiares por meio de vídeo chamadas e telefonemas, o engajamento dos funcionários em quebrar a rotina com atividades antes nunca feitas e a competência de cada funcionário que procurou tornar a vida de nossas moradoras mais acessível e colorida.


OS NOSSOS IDOSOS SÃO DESCARTÁVEIS?

CeMAIS - Qual foi a maior dificuldade e o maior medo que vocês enfrentaram nesse período?


MMS - Para além das dificuldades financeiras e estruturais, durante esse período, a expressão: “esse vírus só mata velho, e daí?” conseguiu questionar e abalar os nossos alicerces. Numa fase social em que o pensamento sobre si mesmo se tornou a norma, esse vírus nos envia uma mensagem clara: a única maneira de sairmos disso ilesos é fazer ressurgir o sentimento coletivo de ajuda ao próximo, de pertencer a uma comum unidade, de sermos responsáveis, sujeitos da história e se fazer parte de algo maior que, por sua vez, é responsável por nós. Movimento dialético, lei da ação e reação: corresponsabilidade! Está faltando empatia, sentir que nossas ações influenciam no destino das pessoas ao nosso redor e que dependemos delas. Em uma sociedade baseada na produtividade e no consumo somos forçados a parar... recolhidos, calados, alarmados, silenciados na dor sentimos na pele o que milhares de idosos sentem cotidianamente. Até que ponto o caminho da lógica e do sucesso vale a pena se não for acompanhado de reciprocidade, afeto, carinho e tolerância. Grandes ações devem ter uma razão maior para serem feitas do que apenas lucro ou grandeza. É preciso pensar nas pessoas, no bem-estar do nascer ao morrer. É preciso tomar atitudes que, mais do que enriquecer alguns, façam do mundo um lugar melhor para todos. Equidade e justiça social! Com o universo e suas leis, parece que a humanidade já está bastante endividada e que essa pandemia está chegando para nos explicar, a um preço caro: os nossos idosos são descartáveis?

ESTÁ FALTANDO EMPATIA.

CeMAIS - Que mensagem você deixaria para os outros dirigentes de ILPIs nesta fase tão delicada que estamos vivendo?


MMS - “Ninguém solta a mão de ninguém”, apesar de dias frios e turbulentos é necessário ressaltar a importante missão de cada um de vocês: nobres guerreiros! Missão quente, carregada de calor e dinamismo que consegue trazer vida e poesia aos nossos dias. Um verão diferente, que nos tira das praças e das serras, mas nos incentiva ao senso de coletividade e empatia, proporcionando um ambiente que o permita olhar da janela (do quarto ou virtual) a possibilidade de aprender e compreender, não apenas os referenciais de cuidados básicos, mas a importância de dignificar a vida humana em todas as suas dimensões. Conte conosco!

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