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Empreendedorismo 60+: a gestão profissionalizada das ILPIs

Por: Taiany Gonçalves


Envelhecer com qualidade. Nunca esse pensamento esteve tão presente na sociedade. Nunca se falou tanto sobre a importância de governos, setor privado e Terceiro Setor dialogarem e criarem políticas e programas eficazes para o cuidado com a pessoa idosa.


E não poderia ser diferente. Afinal, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2050, o número de pessoas com idade superior a 60 anos ultrapassará os 2 bilhões.


No Brasil, a realidade segue a mesma. Estima-se que, em 2030, o país terá a quinta população mais idosa do mundo. E pasmem-se: 2030 está logo aí!


Inclusive, como reflexo desse aumento da população idosa e das necessidades oriundas dele, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou o período entre 2021 e 2030 como a Década do Envelhecimento Saudável, um simbólico pedido para que o mundo se mobilize nessa causa.


Felizmente, nesse cenário, existem as Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas (ILPIs), que se apresentam como importantes lugares de acolhimento e cuidado hoje – e cada vez mais, sabemos que não basta apenas dar carinho e assistência à pessoa idosa. É preciso que haja uma gestão profissionalizada nas instituições para que o envelhecimento seja realmente saudável.



O EMPREENDEDORISMO 60+


O surgimento de locais formais para acolhimento à pessoa idosa não é recente. No Brasil, as instituições filantrópicas para acolher pessoas vulneráveis, incluindo idosos, começaram a surgir ainda no final do século XIX. A prática da época, e que atravessou décadas, era a do assistencialismo, sob a ótica da caridade e da benevolência.


No entanto, a partir da Constituição Federal de 1988, de legislações que reforçam o direito do indivíduo e de instrumentos jurídicos que valorizam as atividades das Organizações da Sociedade Civil (OSC), como o Marco Regulatório (Lei 13.019), as práticas começaram a ser voltadas para a garantia de direitos, o que mudou os rumos na gestão das ILPIs. Para garantir os direitos da pessoa idosa, as instituições precisaram se profissionalizar.

Capacitar gestores e funcionários, cuidar dos recursos humanos, atender às exigências cobradas pelos mais diversos órgãos, prestar contas e pagar corretamente o salário do quadro funcional, que também se tornou maior.


Para Natália Moreira, advogada e supervisora de projetos do CeMAIS, a longevidade das pessoas traz a necessidade de um aperfeiçoamento das equipes de trabalho das ILPIs. “Há um tempo, a ILPI deixou sua característica assistencialista para assumir um papel fundamental como equipamento de auxílio ao Estado no cuidado com a pessoa idosa. Em decorrência disso, a legislação também se atualiza, o que faz surgir mais regras e fiscalização. Por isso e por todas as circunstâncias que atravessam o contexto do acolhimento institucional, a gestão da ILPI deve se profissionalizar e buscar conhecimentos específicos sobre envelhecimento, políticas públicas e, principalmente, legislação”, ela afirma.


Hoje, estar à frente da gestão de uma ILPI é o mesmo que estar à frente de uma empresa. Sim, é sobre empreender no universo 60+.



EM FAMÍLIA: OS DESAFIOS DE UMA GESTÃO HERDADA


Em Belo Horizonte, existem 28 ILPIs socioassitenciais e aproximadamente 200 particulares. Todas, igualmente importantes para a garantia dos direitos da pessoa idosa na capital mineira.


Mas, entre tantas histórias de desafios e superação, uma em particular nos chamou a atenção: a do Asilo Nossa Senhora da Piedade, carinhosamente chamado de Lar da Vovó.


A ILPI de acolhimento a idosas nasceu da assistência domiciliar prestada pelo casal Geraldo e Dávila, e a filha, Maria Isaura de Almeida, a mulheres idosas em situação de vulnerabilidade. Então, veio a ideia de construir uma casa e, em 1987, o Lar da Vovó foi inaugurado no bairro Jardim Paquetá, depois de muita luta e doações.


Antes da inauguração da casa, entretanto, Geraldo adoeceu e foi hospitalizado, o que fez com que a filha herdasse logo cedo o comando e a gestão. “Eu já ia com o meu pai na assistência domiciliar às idosas. Até que veio a ideia da casa, que a gente nem imaginava que ia ser uma instituição tão grande assim. Teve a doação dos lotes e começamos a correr atrás para a construção, mas meu pai adoeceu. Então, eu tomei a frente e falei que iria inaugurar a casa. E assim foi. Fico muito feliz de lembrar que ele veio na inauguração e pôde ver o sonho dele ser realizado”, conta Maria Isaura.


Os desafios não foram e não são poucos. Primeiro, foi o empenho para a construção. “Fiz várias campanhas para arrecadar dinheiro para erguer o lar, e ainda realizei visitas em muitas entidades, perguntando como que fazia para funcionar”, relembra.


Depois, veio a luta para transformar a natureza jurídica da instituição de fundação em associação. “Eu tive que ir à Brasília para conseguir alterar o CNPJ. Isso era uma coisa que prendia o papai, a vida toda ele tentou e não conseguiu”, conta a presidente e gestora.


Hoje, boa parte da renda é proveniente do convênio com a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, que envia um repasse mensal. Uma outra parte vem das campanhas e dos eventos beneficentes, de doações e de 70% do salário de cada idosa institucionalizada.


Mas há que se ter um verdadeiro jogo de cintura para que essa arrecadação seja suficiente para pagar as contas mensais, proporcionar uma qualidade de vida digna às atuais 34 idosas e dar conta do salário dos 44 funcionários, entre técnicos de enfermagem, cuidadores, assistente social, psicóloga, fisioterapeutas, médica, motorista, auxiliar de serviços gerais e cozinheiras.


E, com a necessidade da profissionalização da gestão, mais desafios. “Antigamente, era mais fácil a gestão, porque não havia tantas exigências quanto hoje, eram menos funcionários para gerenciar... Mas, ao mesmo tempo, eu acho que tudo tem que ter regras, porque antes era muito solto. As pessoas que assumem uma instituição têm que fazer isso com responsabilidade, não é um depósito de idosos. Confesso, sim, que quando as exigências chegaram, me assustaram. Começaram a ter exigências do Ministério Público, da Prefeitura, das Vigilâncias, do Corpo de Bombeiros... E a gente não tinha o recurso para conseguir tudo de uma vez. Mas, tudo foi válido para organizar muitas casas e para as pessoas entenderem que ILPI é uma empresa”, explica Isaura.



MISSÃO E LEGADO: O QUE SE DÁ É O QUE SE LEVA


Em razão da pandemia, há um bom tempo eu não ia a campo realizar as minhas entrevistas.


As últimas, inclusive para a própria Valor Compartilhado, foram on-line. Para uma jornalista,

isso é doído demais. Mas, a minha volta ao jornalismo in loco, entrevistando Maria Isaura – e melhor – dentro da instituição, não poderia ter sido mais especial.


“Aceita uma oração?”, recebo a pergunta de uma senhora que tinha uma bíblia em suas mãos enquanto me dirigia a uma espécie de farmácia do Lar da Vovó, que contém os medicamentos e os prontuários de cada idosa institucionalizada. Tudo muito organizado.

A oração, infelizmente, teve que ficar para um outro dia. Mas, essa oferta disse muito do ambiente acolhedor e fraterno e do sentimento de gratidão que é recíproco entre gestora, profissionais e idosas institucionalizadas.


Para Isaura, apesar de ser uma missão de muita responsabilidade, cada uma das idosas têm um papel muito importante na sua vida. “Elas viraram minhas avós. É um prazer incrível que eu sinto quando estou com elas. No final de semana, como não venho, morro de saudade. Quando a casa inaugurou, a primeira que faleceu, eu quase fui junto, de tanta tristeza. Eu não tinha afinidade com a morte, mas depois fui me acostumando, entendendo que é apenas uma passagem e agradecendo muito a Deus por eu ter tido a oportunidade de fazer alguma coisa por cada uma”, reflete.


E é esse o legado que ela já compartilha com Daniela e Flávia, filha e sobrinha que atuam na instituição. Enquanto Daniela é coordenadora e seu braço direito na ILPI, Flávia cuida das questões burocráticas e financeiras, atuando no escritório da instituição, localizado no Centro de Belo Horizonte.


Apesar das raízes familiares já terem sido criadas, Isaura ainda não sabe se filha e sobrinha assumirão a gestão do lar quando ela parar. E, na verdade, não é hora de pensar nisso, afinal, ela não pretende se aposentar: “Isso aqui faz parte da minha vida, desde o início eu percebi como uma missão. Eu não quero parar. Apesar de não ser fácil gerir uma instituição e de, muitas vezes, eu perder o sono por causa dos problemas daqui, eu não tenho coragem de parar. É a minha satisfação diária”.



*****


Fim da entrevista. Saímos da sala em que estávamos para que eu pudesse conhecer o lar. Mas não demos nem dois passos e logo fomos surpreendidas por uma cuidadora. “Dona Isaura, pode ir ali? Querem te entregar uma coisa...”, apontando em direção a uma idosa institucionalizada.


Mais três passos, chegamos a ela. Sentada e sem rodeios, a idosa se vira com certa dificuldade em direção à Isaura, ergue uma rosa e diz: “É para você. Me deram, mas eu queria te dar, porque você é linda como ela”.


E, de repente, gerir uma ILPI parece ser o mais prazeroso dos trabalhos.



Esse e outros conteúdos você encontra na 18ª edição da Revista Valor Compartilhado. Confira: Revista Valor Compartilhado.


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