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Aprendizagem como modelo de transformação social

Atualizado: 15 de jun.

Como o programa Jovem Aprendiz atua de forma intersetorial para a inserção de jovens no mercado de trabalho


Por: Sofia Fuscaldi


Vivia Santos é uma jovem de 18 anos que trabalha como aprendiz em uma empresa em Curvelo (MG) e, atualmente, cursa Direito na Faculdade de Ciências Humanas de Curvelo (FASIC). Ela conta sobre o seu percurso profissional e qual foi a importância de cada passo para chegar onde está hoje.


Em 2019, Vivia participou da Mentoria de Empregabilidade, iniciativa para jovens de 15 a 18 anos desenvolvida pela CDM - Cooperação para o Desenvolvimento e Morada Humana, que auxilia estudantes do Ensino Médio a aprimorarem competências como o trabalho em equipe, o diálogo, a responsabilidade, a criatividade e a argumentação, além de promover o autoconhecimento, a autoestima, o relacionamento interpessoal e a gestão do tempo, sempre com foco no protagonismo dos estudantes e no fortalecimento dos vínculos entre a família, a escola e a comunidade. “A Mentoria me impactou de uma forma muito boa, eu aprendi a ter confiança em mim, porque eu não tinha nenhuma, e lá eu fiz apresentações para várias pessoas, e isso foi mudando, eu consegui me sobressair. Eu não conseguia conversar com as pessoas, minha voz não saía, eu tinha uma crise de pânico basicamente, lá consegui me desenvolver. Eu não deixei de ser tímida, mas hoje em dia eu sei lidar, no primeiro encontro eu não consegui falar, eu só tremia. Foi visível a mudança”, relata a estudante.


A CDM é uma associação sem fins lucrativos que, há mais de 35 anos, contribui para a promoção do desenvolvimento de pessoas e territórios. No ano de 2021, a instituição implementou seis projetos voltados para a empregabilidade e preparação para o mercado de trabalho, com um total de 489 mentorias realizadas e 459 beneficiados. Mais de 30 participantes foram contratados como aprendizes e, além disso, diversos jovens se engajaram em trabalhos próprios, fomentando o empreendedorismo local.


“Os programas de aprendizagem proporcionam a oportunidade de inserção do adolescente no mercado formal, protegendo este público de possíveis situações de violação. Garante ainda a oportunidade de desenvolvimento de importantes habilidades e competências para a vida profissional, consolidando conteúdos teóricos e práticos”, Adriana Alves, Coordenadora de Projetos da CDM.


Sarah Santos, uma jovem de 19 que mora em Sete Lagoas (MG), é aprendiz na IVECO, empresa fabricante de veículos. Além do sobrenome, Sarah compartilha de uma história semelhante a de Vivia. Em abril de 2021, ela entrou no Próximo Passo, programa de responsabilidade social da IVECO, cuja gestão é feita pela CDM. Dentro do programa, ela participou do projeto Conexão e Trabalho.


Sarah começou a trabalhar como aprendiz na IVECO no início de 2021, por meio do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE). Dentro do Conexão e Trabalho, ela teve uma visão mais ampla do mercado de trabalho e passou a conhecer melhor a empresa na qual trabalha. Durante o curso, Sarah teve contato com gerentes e outros colaboradores da IVECO. “Hoje em dia, o meu currículo é mais completo por causa das aulas. O Conexão me ajudou a ter uma visão melhor sobre a minha carreira. Eu não queria faculdade, não sabia se eu faria um técnico, hoje eu tenho uma visão diferente”, ela conta. Atualmente, após conhecer a IVECO e trabalhar na Manutenção Industrial da empresa, Sarah pensa em cursar uma faculdade de Administração. Para ela, a Administração permite uma liberdade de experimentar vários ramos dentro do mercado de trabalho, sendo muito necessária, tanto em pequenas empresas como em multinacionais.


A pandemia da Covid-19 trouxe diversas dificuldades para a vida da Sarah. Quando a pandemia começou, ela estava no 3º ano do Ensino Médio e ficou um ano sem aulas presenciais. Foi nesse contexto que Sarah começou a participar do Jovem Aprendiz. “Eu estava sem convívio social, sem rotina nenhuma, sem visão para o futuro. A pandemia fez isso com a gente. O Jovem Aprendiz me deu um foco, e o Conexão me ajudou muito a socializar e debater com as pessoas. O que mudou foi que eu comecei a ter mais independência financeira. Apesar de eu ainda precisar muito da minha mãe para algumas coisas, eu consigo ajudar a minha mãe a pagar algumas coisas ou evitar de pedir dinheiro pra ela. Além disso, está me ajudando muito a ter disciplina. Na pandemia, eu não tinha mais horário para dormir, não tinha horário para acordar, desenvolvi ansiedade e perdi o contato com o exterior. E o trabalho começou a me dar essa disciplina de estar lá no horário. Eu percebi que eu realmente tinha que ir não só porque eu ia perder dinheiro, mas quando eu vi que o que eu faço tem muita importância para a empresa”, ela relata.


A Vivia também traz a ajuda financeira como um ponto extremamente positivo para dar sequência na sua carreira profissional:


“Mesmo tendo feito o vestibular, tem uma porcentagem que eu pago na faculdade. Se não fosse o Jovem Aprendiz, acho que eu não estaria fazendo faculdade por agora.”




Jovem Aprendiz: uma estratégia para o futuro dos nossos jovens


O Programa Jovem Aprendiz foi criado em 2000, a partir da Lei de Aprendizagem, nº 10.097, para estimular empresas e órgãos públicos a contratar estudantes de 14 a 24 anos de idade e pessoas com deficiência, priorizando jovens de famílias com renda de até meio salário mínimo por pessoa. Seu objetivo é combater o trabalho infantil, oferecendo a possibilidade de um caminho seguro para a inserção do jovem no mercado de trabalho, por meio de um processo educacional voltado para o desenvolvimento profissional.


“O Jovem Aprendiz está sendo muito bom, porque a cada dia é um novo desafio que se transforma em um novo aprendizado. Tenho certeza que eu não vou esquecer!”, Vivia Santos, aprendiz.


A Lei de Aprendizagem exige que o aprendiz esteja matriculado no ensino regular e garante que o jovem contratado receba o proporcional ao salário mínimo pelas horas trabalhadas e também outros direitos trabalhistas, como vale-transporte, 13° salário, férias e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Tudo devidamente registrado na Carteira de Trabalho e Previdência Social.


A legislação também estabelece que qualquer empresa, com pelo menos sete funcionários, tem que contratar jovens aprendizes, oferecendo diversos benefícios às empresas contratantes. A proposta é integrar o estudo e a prática, não exigindo experiência de trabalho anterior. O Programa assegura:


  • Carga horária de trabalho reduzida;

  • Proteção ao trabalho em ambientes perigosos ou insalubres;

  • Proibição ao trabalho em horários que não permitam a frequência escolar;

  • Formação técnico-profissional por meio de cursos profissionalizantes.



Importância da intersetorialidade na garantia de direitos


“O poder público e as alianças intersetoriais contribuem para fortalecer o Jovem Aprendiz a partir da sensibilização de empresas para a importância social dos programas de aprendizagem e para a responsabilidade formativa prevista, que transcende a necessidade de cumprimento de cotas. Essa intersetorialidade também contribui estimulando a efetivação dos aprendizes após o contrato de aprendizagem e realizando o acompanhamento dos adolescentes e jovens inseridos no programa, garantindo sua adaptação ao ambiente de trabalho e mitigando possíveis riscos de evasão ou quebra de contrato. Além disso, as alianças entre governo, empresas e organizações sociais auxiliam no alinhamento das diretrizes da educação com a realidade mercadológica, para que o ingresso em programas de aprendizagem não implique nenhuma perda na rotina escolar”, Adriana Alves, Coordenadora de Projetos da CDM.


Na IVECO, empresa na qual a Sarah é aprendiz, a intersetorialidade do Programa está presente. Os cursos profissionalizantes obrigatórios para o Jovem Aprendiz são realizados por duas organizações parceiras e o processo seletivo prioriza jovens da comunidade local. Alguns colaboradores que estão na empresa hoje começaram sua trajetória como aprendizes.


Jaqueline Gazire atua há seis anos como Analista de Responsabilidade Social na IVECO e ela observa que “após serem selecionados, alguns jovens se sentem deslocados e falta disciplina e comprometimento com algumas tarefas. Porém, durante o Programa, estes pontos são trabalhados para que todos possam se sentir realmente integrados à empresa, compreendendo a importância que têm e a importância da atividade que realizam. Com o passar do tempo, vemos jovens mais responsáveis, maduros e, muitas vezes, que nos surpreendem com o desempenho”. Uma personalidade importante neste processo de adaptação é a pessoa gestora que acompanha o jovem durante toda a trajetória de aprendizagem, assumindo a responsabilidade de cuidar, ensinar, treinar e ajudar aprendizes dentro da empresa.


Carla Teixeira, colaboradora da IVECO há mais de 12 anos, atua no setor de manutenção industrial e é ela quem acompanha o percurso da Sarah e de outros aprendizes dentro do setor. Sobre sua experiência com os aprendizes, Carla fala dos desafios e benefícios: “Tive o prazer de gerenciar mais de quatro aprendizes nos últimos anos e a felicidade de ver uma jovem ser contratada. É grande o desafio de conciliar as atividades diárias, como reuniões, gestão e liderança da equipe de manutenção e auxiliar os jovens aprendizes. O setor de manutenção tem uma rotina muito intensa e requer que várias habilidades sejam desenvolvidas, tais como comunicação, gestão das tarefas e proatividade. Com o tempo, todos vão se familiarizando e se integrando às atividades e conhecimentos necessários. Sempre busco passar o conhecimento e a experiência adquirida para estes jovens e contribuir para que se desenvolvam no local de trabalho. Acredito que desta forma, não só os preparo para a atuação diária, como os ajudo também na formação profissional para o futuro.”


Para os adolescentes que estão pensando sobre o futuro, a Sarah e a Vivia deixam recados importantes:


“Não tenham dúvida, entrem no Programa. Ajuda muito na questão pessoal e no mercado de trabalho. Você pode ser tímido, mas tem que deixar um pouquinho de lado, traz muita prática que a gente leva para o resto da vida. A dica que eu dou é: participem. Não tenham dúvida, entrem, é a certeza que vai dar certo.” - Vivia Santos


“Um conselho que eu dou para quem está iniciando como aprendiz é: Se você conseguir, poupe pelo menos um pouquinho do salário por mês. Às vezes, você pode sair desse processo e pode ser muito difícil encontrar emprego. O desemprego no Brasil está muito alto. Mas o maior conselho que eu posso dar é: Aproveite! Aproveite o que você tem agora, tente tirar o máximo de conhecimento dos seus superiores e tente mostrar seu potencial.” - Sarah Santos

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